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quarta-feira, 26 de agosto de 2015

Barroco - Seus Principais Pintores

Olá, gente!

Hoje venho mostrar algumas pinturas do período do Barroco. Mas para quem não conhece ou não lembra algumas das características do período, irei fazer uma breve introdução sobre ele.

Bem, o Barroco foi uma manifestação artística que representou os conflitos espirituais e culturais do homem do século XVII ( bem e mal - céu e terra - fugaz e eterno - carne e o espírito). Esse período artístico-histórico surgiu após a Contrarreforma e ia de encontro aos padrões renascentistas. É uma arte que apela para a emoção do espectador.

Pintores da arte barroca:

- Caravaggio:

Cresceu na cidade de Caravaggio, nome pelo qual ficou conhecido. Viveu em Milão no seu período de aprendizagem, no qual trabalhava a natureza-morta. Por volta de 1590 foi morar em Roma, onde se dedicou principalmente a pintar a vida de rua.
Fez uso do chiaroscuro (claro-escuro) e rompeu com o hábito de pintar figuras simétricas e planos de fundo. Abaixo, tem-se a obra Crucificação de São Pedro (1601).


- Rubens:

Peter Paul Rubens destacou-se como pintor de cenas bíblicas e mitológicas, foi influenciado por Michelangelo. Rubens rompeu com o estilo dominante até então. Os nus exuberantes, repletos de figuras rechonchudas, são típicas de muitas de suas obras. Abaixo a obra O rapto das filhas de Leocipo (1617). 


- Velázquez:

Nasceu em Servilha e pertencia à pequena nobreza. Em 1624, foi nomeado como pintor da corte. Mostrava em suas obras linhas sutis nos rostos das figuras representadas; retratou a família real espanhola e pintou também peças históricas. Abaixo a obra O triunfo de Baco ( 1628-1629). 

                                  

- Rembrandt: 

Foi influenciado pelo claro-escuro de Caravaggio. Desenvolveu o uso distintivo de luz e escuridão e era fascinado por rostos, como mostra a sua obra abaixo: A lição de anatomia do Dr. Tulp de 1632.



- Vermeer: 

Foi um pintor holandês. Utilizou nas suas obras cenas do cotidiano, pessoas comuns, paisagens e devido a isso suas obras apresentam-se como um retrato da sociedade da época. Ele retratava principalmente as figuras femininas, como a que está pintada na obra abaixo: Moça com brinco de pérola ( 1665). 


Espero que tenham gostado desse post que viajou no período do Barroco e nas suas pinturas. Até breve! Vou deixar aqui no final um vídeo com a análise da obra A Lição de Anatomia do Dr. Tulp.


                                      

terça-feira, 30 de junho de 2015

Trovadorismo - Lírica galego-portuguesa - Ai flores, ai flores do verde pinho.

Olá!!

Hoje eu venho trazer para vocês uma cantiga do período do Trovadorismo do D. Dinis, rei de Portugal por quase meio século, seu reinado foi importante na âmbito da cultura e literatura, além disso em relação às poesias trovadorescas teve papel marcante.

Bem, o trovadorismo é uma manifestação literária do século XII, período da Idade Média. Os trovadores eram de origem nobre e compunham as cantigas, que nesse período eram cantadas com o auxílio de alguns instrumentos e não declamadas. Havia quatro tipos de cantigas: de amor, de amigo, de maldizer e de escárnio. A cantiga de D.Dinis que trouxe aqui é uma cantiga de amigo. 


Ai flores, ai flores do verde pinho,
se sabedes novas do meu amigo?
Ai Deus, e u é?

Ai flores, ai flores do verde ramo,
se sabedes novas do meu amado?
Ai Deus, e u é?

Se sabedes novas do meu amigo,
aquel que mentiu do que pôs comigo?
Ai Deus, e u é?

Se sabedes novas do meu amado,
aquel que mentiu do qui mi há jurado?
Ai Deus, e u é?

Vós me perguntardes polo voss'amigo,
e eu bem vos digo que é sã'e vivo.
Ai Deus, e u é?

Vós me perguntardes polo voss'amado,
e eu bem vos digo que é viv'e são.
Ai Deus, e u é?

E eu bem vos digo que é sã'e vivo
e seera vosc'ant'o prazo saído.
Ai Deus, e u é?

E eu bem vos digo que é viv' e são
e seera vosc'ant'o prazo passado
Ai Deus, e u é?


          D. Dinis (CV 171, CBN 533)

Glossário:
v. 1 ‑ pino: pinheiro.
v. 3 – u é: onde está?
v. 8 ‑ do que pôs comigo: sobre aquilo que combinou comigo.
v. 14 ‑ sano: saudável, são.
v. 20 ‑ seera vosc’ant’o prazo saído: estará convosco antes de terminar o prazo.

Aqui, vou deixar um vídeo dessa cantiga sendo cantada por Helena de Alfonso no seu disco Barahunda: 


quinta-feira, 19 de março de 2015

Presságio - Fernando Pessoa

O amor, quando se revela,
Não se sabe revelar.
Sabe bem olhar pra ela,
Mas não lhe sabe falar.
Quem quer dizer o que sente
Não sabe o que há de dizer.
Fala: parece que mente…
Cala: parece esquecer…
Ah, mas se ela adivinhasse,
Se pudesse ouvir o olhar,
E se um olhar lhe bastasse
Pra saber que a estão a amar!
Mas quem sente muito, cala;
Quem quer dizer quanto sente
Fica sem alma nem fala,
Fica só, inteiramente!
Mas se isto puder contar-lhe
O que não lhe ouso contar,
Já não terei que falar-lhe
Porque lhe estou a falar…

Todas as cartas de amor… - Fernando Pessoa

Todas as cartas de amor são
Ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem

Ridículas.

Também escrevi em meu tempo cartas de amor,
Como as outras,
Ridículas.

As cartas de amor, se há amor,
Têm de ser
Ridículas.

Mas, afinal,
Só as criaturas que nunca escreveram
Cartas de amor
É que são
Ridículas.

Quem me dera no tempo em que escrevia
Sem dar por isso
Cartas de amor
Ridículas.

A verdade é que hoje
As minhas memórias
Dessas cartas de amor
É que são
Ridículas.

(Todas as palavras esdrúxulas,
Como os sentimentos esdrúxulos,
São naturalmente
Ridículas.)

sábado, 31 de janeiro de 2015

O Rei e suas Quatro Esposas


Era uma vez um rei que tinha 4 esposas…
Ele amava a 4ª esposa demais… ele dava-lhe de tudo.
Ele também amava muito sua 3ª esposa e gostava de exibi-la.
Ele também amava sua 2ª esposa. Ela era sua confidente.
A 1ª esposa era uma parceira muito leal e fazia tudo para mantê-lo muito Rico e Poderoso. Mas ele não a amava.
Um dia o rei caiu doente e percebeu que o seu fim estava próximo.
Então ele perguntou à 4ª esposa: -“Eu amei-te tanto, querida… cobri-te das mais finas roupas e joias… agora que eu estou morrendo… és capaz de morrer comigo?”
“De jeito nenhum!” respondeu a 4ª esposa e saiu do quarto sem sequer olhar para trás…
Tristemente… o rei então perguntou à 3ª esposa: “Eu também te amei tanto a vida inteira… és capaz de morrer comigo, para não me deixares sozinho…?”
“Não!!”, respondeu a 3ª esposa. “A vida é boa demais!!! Quando você morrer, eu vou é casar de novo…”
Ele perguntou, então, à 2ª esposa: “Eu sempre recorri a ti quando precisei de ajuda… e tu, quando eu morrer serás capaz de morrer comigo, para me fazeres companhia…?”
“Sinto muito mas… desta vez eu não posso fazer, o que você me pede!” respondeu a 2ª esposa. “O máximo que eu posso fazer… é enterrar você…”
Daí…uma voz se fez ouvir…
“Eu partirei com você e o seguirei por onde você for…” O rei levantou os olhos e lá estava a sua 1ª esposa, tão magra… tão mal nutrida… tão sofrida…
Com o coração partido, o rei falou: “Eu deveria ter cuidado muito melhor de ti, enquanto eu ainda podia…”

Na Verdade, todos nós temos 4 esposas nas nossas vidas…
Nossa 4ª esposa, é o nosso corpo. Apesar de todos os esforços que fazemos para mantê-lo saudável e bonito, ele nos deixará quando morrermos…
Nossa 3ª esposa, são as nossas posses, as nossas propriedades, as nossas riquezas. Quando morremos, tudo isso vai para os outros.
Nossa 2ª esposa, são nossa família e nossos amigos. Apesar de nos amarem muito e estarem sempre nos apoiando, o máximo que eles podem fazer é nos enterrar.
E nossa 1ª esposa é a nossa ALMA… Muitas vezes deixada de lado por perseguirmos, durante a vida toda, a Riqueza, o Poder e os Prazeres do nosso ego.
Apesar de tudo, nossa Alma é a única coisa que sempre irá conosco, não importa onde formos.

sábado, 3 de janeiro de 2015

Em Busca de um Final Feliz - Katherine Boo

Olá!!

O primeiro livro do ano, gente...Hoje, vou falar sobre o livro Em Busca de um Final Feliz escrito por Katheline Boo.


Sinopse: 

Em Busca de um Final Feliz, de Katherine Boo, é um livro brilhantemente escrito. Através de uma forte narrativa, descobrimos como é o dia a dia dos moradores de Annawadi, uma favela à sombra do elegante Aeroporto Internacional de Mumbai, na Índia. A história de seus habitantes nos faz rir e chorar (...). (Zeca Camargo, em prefácio a esta edição).


O leitor vai se apaixonar por Sunil Sharma, o menino catador de lixo que quer ficar rico, por Manju, a moça mais bonita da favela, que quer ser professora, e até pela tresloucada Fátima, a Perna Só, que só quer um pouco de atenção.


A autora Katherine Boo é casada com um indiano e  passou três anos observando a favela de Annawadi na Índia e seus moradores; nesse livro, ela retrata histórias reais, inclusive nomes reais, de pessoas que buscavam de todas as maneiras possíveis, honestas ou não, mudarem a realidade em que viviam e a tentativa incessante de um final feliz. 
Porém por ser um livro real, um final feliz não é o que você vai encontrar, mas sim uma tentativa persistente de continuar a vida e fazer com que ela tome caminhos melhores.



O que mais marca no livro é a grande corrupção existente no local. Asha, a senhora da favela, ajuda apenas aqueles que possuem condições financeiras de retribuir a ''ajuda'' e, com isso, conseguiu colocar sua filha Manju na faculdade. Além da polícia, políticos totalmente corruptos e as falsas escolas que existiam apenas no papel, enquanto a verba era desviada para outros fins. Tudo parece girar em torno da corrupção nesse local.


Kamble, um homem que precisa de uma válvula cardíaca nova, busca de diversos meios ajuda com empréstimos para pagar uma cirurgia que deveria ser gratuita, porém até os médicos entram nesse círculo de corrupção e cobram dele uma quantia para realizar tal cirurgia. E Asha não o ajuda, pois ele não tinha dinheiro para pagar pela ''ajuda''.

Até mesmo os moradores da favela buscam se sobressair sobre os demais. Porém, é como se fosse algo instintivo, pois tudo que eles buscam é sobreviver em meio ao caos de desigualdade de Mumbai. 


O livro apresenta a histórias de várias famílias de Annawadi. Os personagens que com certeza mais me marcaram foi Abdul e Manju. 

Abdul é um catador de lixo, que por ser tão hábil no que faz conseguiu proporcionar uma melhoria de vida para seus familiares, o que causou certa inveja nos moradores da favela. Ele tentava ser o melhor que podia, mas via como era difícil ser honesto em um lugar como Annawadi. 


 ''Por algum tempo, eu tentei evitar que o gelo dentro de mim derretesse – foi assim que ele se expressou. – Mas agora estou simplesmente me transformando em água suja, como todos os outros. Eu digo a Allah que eu O amo imensamente, imensamente. Mas também digo a Ele que não posso ser melhor, porque Ele sabe como o mundo é.''

Porém, esse mudança para o futuro parece incerto quando ele e seus familiares são acusados de um crime que não cometeram e não podem pagar o que a polícia pede para o encerramento do caso.


''O sistema de justiça criminal da Índia era um mercado, assim como o do lixo, Abdul entendia isso agora. A inocência e a culpa poderiam ser compradas e vendidas como um quilo de sacolas plásticas.''

Bom, o livro é muito interessante por mostrar essa outra realidade e a cultura desses povos. A obra proporciona uma viagem na Índia e um aprofundamento na vida dos personagens.

Aqui deixo a parte do livro que foi a que mais me marcou. 

Quem quiser curte aqui a página do blogger no face.

Bjs!! Até mais..


Em Busca de um Final Feliz - Katherine Boo (Trecho do Livro)


Em Busca de um Final Feliz relata histórias reais de moradores da favela de Annawadi, que lutam diariamente em busca de um final feliz,  uma oportunidade para poderem crescer juntamente com uma cidade que tanto crescia mundialmente, mas tal crescimento gerava mais desigualdades do que oportunidades para os cerca de 3.000 habitantes de Annawadi.

Deixo aqui o trecho do livro que mais me comoveu: 

'' Em uma madrugada no fim de julho, Sunil encontrou um catador caído na lama no cruzamento da estradinha de terra de Annawadi com a grande via do aeroporto. Sunil conhecia ligeiramente o velho; ele trabalhava duro e dormia do lado de fora do mercado de peixes Marol [...]. Agora, a perna do homem estava esmagada e ensanguentada, e ele estava pedindo ajuda aos transeuntes. Sunil imaginou que ele fora atropelado por um carro. Alguns motoristas não se preocupavam muito em evitar os catadores de lixo que se espalhavam na beira das estradas.

Sunil estava assustado demais para ir até a delegacia de polícia e pedir uma ambulância, [...]. Em vez disso, ele correu em direção ao campo de batalha, nas caçambas de lixo da área de carga, esperando que um adulto tivesse coragem  de ir à delegacia. Milhares de pessoas passavam por ali todos as manhãs.

Quando Zehrunisa Husain passou por ali, uma hora depois, o catador estava gritando de dor. Ela achou que a perna dele estava com uma aparência horrível,  mas ela estava levando comida e remédio para seu marido, que também estava com uma aparência horrível, do outro lado da cidade, na prisão de Arthur Road. 


O senhor Kamble passou um pouco depois, com os olhos leitosos e cheios de dores, em caminho atrás de negócios e caridade, ainda procurando contribuições para sua válvula cardíaca. Ele já fora um morador de rua como o homem ferido. Porém, agora, o senhor Kamble não enxergava nada além do saco sem fundo do seu próprio sofrimento, [...].


Quando Rahul e seu irmão retornaram da escola, no começo da tarde, o catador ferido estava deitado, quieto, gemendo fracamente. As 14h30, um homem do Shiv Sena fez uma ligação para um amigo da delegacia de polícia de Sahar sobre um defunto que estava perturbando as crianças pequenas. Às 16 hora, os guardas chamaram outros catadores para carregar o corpo para dentro do carro da polícia, para que eles mesmos não pegassem as doenças que diziam que os catadores de lixo carregavam. ''



sábado, 27 de dezembro de 2014

Soneto de Separação - Vinícius de Moraes


De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto.


De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama.

De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente.

Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente.


Vinícius de Moraes





segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

XI Bienal Internacional do Livro do Ceará


Olá!!!
Passei um tempo sem escrever devido o fim de ano letivo e o Enem, porém estou aqui de férias e vim falar de um evento super especial para quem assim como eu e, certamente, você também que amamos ler vai adorar. 



A XI Bienal Internacional do Livro do Ceará começou este mês ( dezembro/2014) no dia 6 (sexta) e se realiza até o dia 14 (domingo), acontece no Centro de Eventos do Ceará- Fortaleza (CE), entrada gratuita com funcionamento  das 9hrs às 22hrs. 

Pode-se encontrar uma infinidade de livros para os mais diversos públicos. Livros infantis, juvenis, biografias, cordéis e até acadêmicos. E os homenageados são Moreira Campos e Milton Hatoum.


"A ideia é contemplar, com destaque e visibilidade, tanto autores, editoras e livreiros locais quanto nomes e empresas consagrados no cenário nacional, além de escritores internacionais", destaca a secretária adjunta da Secult, Ana Márcia Diógenes.

''A literatura de cordel tem lugar garantido no coração de todo nordestino e a XI Bienal Internacional do Livro do Ceará não ignorou isso. O evento terá novamente a Praça do Cordel, espaço destinado exclusivamente para abrigar cortejos, recitais, apresentações musicais, oficinas, lançamento de livros entre outras manifestações da cultura cordelista.'' Via site da Bienal do livro, aqui.



Também haverão visitações escolares para as que se interessam em participar. Na última realização desse evento no ano de 2012 cerca de 30 mil alunos e profissionais da rede estadual foram ao evento. 



Algumas das atrações da Bienal 2014 são Bia Bedran, Thalita Rebouças, Luiz Tatit, José Miguel Wisnik, dentre outros. 



Já fui no primeiro dia para conferir tudo e foi muito bom estar cercada por tantos livros e autores bons. E vale ressaltar que achei os preços desse ano bem melhores quando comparados à bienal anterior. O primeiro dia não foi muito lotado, mas acredito que nos próximos dias haverá bem mais visitantes. 

Confira a programação através do site oficial ou no facebook  e pelo twitter da Bienal.


  • XI Bienal Internacional do Livro do Ceará

Data: 06 a 14 de dezembro de 2014

Local: Centro de Eventos do Ceará – Fortaleza (CE)

Horário de Visitação: das 9 horas às 22 horas

Entrada gratuita



terça-feira, 7 de outubro de 2014

Eu, etiqueta - Carlos Drummond de Andrade




Eu, etiqueta
Em minha calça está grudado um nome
Que não é meu de batismo ou de cartório
Um nome... estranho
Meu blusão traz lembrete de bebida
Que jamais pus na boca, nessa vida,
Em minha camiseta, a marca de cigarro
Que não fumo, até hoje não fumei.
Minhas meias falam de produtos
Que nunca experimentei
Mas são comunicados a meus pés.
Meu tênis é proclama colorido
De alguma coisa não provada
Por este provador de longa idade.
Meu lenço, meu relógio, meu chaveiro,
Minha gravata e cinto e escova e pente,
Meu copo, minha xícara,
Minha toalha de banho e sabonete,
Meu isso, meu aquilo.
Desde a cabeça ao bico dos sapatos,
São mensagens,
Letras falantes,
Gritos visuais,
Ordens de uso, abuso, reincidências.
Costume, hábito, premência,
Indispensabilidade,
E fazem de mim homem-anúncio itinerante,
Escravo da matéria anunciada.
Estou, estou na moda.
É duro andar na moda, ainda que a moda
Seja negar minha identidade,
Trocá-lo por mil, açambarcando
Todas as marcas registradas,
Todos os logotipos do mercado.
Com que inocência demito-me de ser
Eu que antes era e me sabia
Tão diverso de outros, tão mim mesmo,
Ser pensante sentinte e solitário
Com outros seres diversos e conscientes
De sua humana, invencível condição.
Agora sou anúncio
Ora vulgar ora bizarro.
Em língua nacional ou em qualquer língua
(Qualquer, principalmente.)
E nisto me comprazo, tiro glória
De minha anulação.
Não sou - vê lá - anúncio contratado.
Eu é que mimosamente pago
Para anunciar, para vender
Em bares festas praias pérgulas piscinas,
E bem à vista exibo esta etiqueta
Global no corpo que desiste
De ser veste e sandália de uma essência
Tão viva, independente,
Que moda ou suborno algum a compromete.
Onde terei jogado fora
meu gosto e capacidade de escolher,
Minhas idiossincrasias tão pessoais,
Tão minhas que no rosto se espelhavam
E cada gesto, cada olhar,
Cada vinco da roupa
Sou gravado de forma universal,
Saio da estamparia, não de casa,
Da vitrine me tiram, recolocam,
Objeto pulsante mas objeto
Que se oferece como signo de outros






 Objetos estáticos, tarifados.
Por me ostentar assim, tão orgulhoso
De ser não eu, mar artigo industrial,
Peço que meu nome retifiquem.
Já não me convém o título de homem.
Meu nome noco é Coisa.
Eu sou a Coisa, coisamente.
(Carlos Drummond de Andrade)

Olá!! Gente, achei esse texto muito bom e bastante atual, vou deixar aqui para vocês conferirem um vídeo com esse texto narrado, espero que gostem.




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